RELATOS

Thaís Lima . Designer
Retorno à Infância

'Quando então pude entrar no rio, ali enfim sozinha, senti algo tomar conta de tudo. Talvez o que sempre ouvira como 'a paz'.  Fria a água, contrastando com o calor que vinha em meu peito desde sempre. Ouvia os pássaros como uma orquestra de mil sons multiplicados, o sol em minha pele como sopro de energia vital. Sentia estar ainda mais viva do que nunca. 

Era verão de 1995. Havia recém saído em férias, do trabalho, do dia-a-dia super acelerado, da vida cosmopolita e barulhenta na cidade que me acolhera.

Há muito que desejava voltar àquelas terras, terras de meus avós, terras que criaram meus pais. Enfim podia agora, depois de muito sonhar com isto, pisar e correr descalça, sentir o orvalho pela manhã, e esta brisa suave agora de fim de tarde, observada pelas magnânimas araucárias de que tanto falava meu pai. O cheiro do café invadia toda a casa rústica dos avós. A casa ainda inteira, ainda majestosa, eterna, feita de pedras, firme no tempo.

 

Houve um momento em que pude me encontrar sozinha em meio à floresta. Era imensa. E eu agora, mais do que nunca, também parte dela. Ali, naquela atmosfera, ali, onde provavelmente meus avós se conheceram, ali eu me reencontrava com minha ancestralidade perdida. Me renovava a cada passo, a cada som que a mata trazia. "Amamos com toda nossa alma" - era a frase que não saía da cabeça enquanto caminhava. De onde? Um eco trazido pelo vento, sussurrado nas folhas dos pinheiros. Tinha a voz de minha mãe... ou era a minha própria... Não sei... Uma calma absoluta ...'

Jester de Mello . Marceneiro
Coração Eterno

'Felicidade é terminar o dia, mesmo que cansado do trabalho, ter o privilégio de entrar em casa sentindo o cheiro da comida quente sobre a mesa, te esperando.

Durante toda minha infância, no que posso puxar pela memória, minha mãe fazia ecoar porta afora meu nome e o de meus irmãos anunciando o jantar. Sua voz percorria todos os espaços da serraria de meu pai, passava por todos os vãos das madeiras, todas as frestas, ecoava em cedros, imbúias, ipês, perobas, sucupiras, nas pilhas de pinheiro-americano, até chegar a nossos ouvidos... e nossos estômagos. Interrompíamos a brincadeira em que estávamos, fosse o que fosse, brinca de esconde, disputa de bandos formado com as outras crianças, e corríamos pra casa atravessando a ponte de madeira que era apenas uma grande imensa árvore tombada sobre o rio.

 

Depois de um banho rápido, o risoto com carne-seca fumegava sobre a grande mesa de madeira. Feita pelas mãos de meu pai, com o centro numa plataforma mais elevada, e que girava. Fiz questão de conservar esta mesa até hoje em casa, bem como o fogão rústico de pedras dos avós.

 

Durante toda a vida, a madeira e as mãos estiveram próximas, e se perpetuaram como marca indelével de todo o trabalho. A rigidez do pai no fazer das construções, o amor da mãe refletido no carinho e finalização dos objetos, pensando em seu uso no dia a dia ...'

Diego Viali . Arquiteto - Viali Viali Arquitetura
No ronco do Motor

Eu tinha apenas 17 anos.

Um garoto, querendo abraçar o mundo. E como todo rapaz da minha idade, sem carro, naturalmente crescia em mim a enorme vontade de possuir um, ser cada vez mais independente, andar com as próprias pernas. Então eu acabava pegando o carro do meu pai pra dar umas voltinhas. Mas eu não podia ainda na época, era ainda de menor. Então meu pai, vendo o que estava acontecendo, e tendo condições, me deu de presente um Jipe, para que eu pudesse correr 

profissionalmente, e extravasar a vontade de superação.

E eu investi. Naquela época - de 1997 a 2001 - participei de algumas provas no campeonato Sul Brasileiro de Jipe Cross. Era muito emocionante o roncar dos motores, o meu, o do competidor ao lado, aquele adrenalina crescente da emoção, da aventura... Isso é um momento que eu levo para a minha eternidade, aquele momento que eu vivenciava, pois sabia que tinha de vencer, mesmo com poucos recursos, com meu Jipe tendo menos equipamento, eu mesmo não tinha dinheiro algum para investir.

 

Então eu me via nesta situação: tinha de competir com competidores que possuíam equipamentos melhores que os meus. Eu ouvia o ronco do motor, e isso me motivava. E só me restava era começar a pensar em me superar. Para o meu jipe resolvi investir em um motor Quatro de Opala, que era mais leve e menos oneroso que os demais modelos, os de Quatro e os de Seis Cilindros. Quatro de Opala quer dizer 'Quatro cilindros' - pois este motor era mais leve, com cano curto. Naquela época as pistas tinham alguns trechos com salto, e normalmente se utilizava um motor Seis de Opala. E se desse algum salto, ou seja, se tivesse muita potência e velocidade - como os que investiam num Seis de Opala - se passasse um pouco na lama, ou se saltasse em algum lugar, o peso do motor fatalmente entortava a carcaça. Então, quase toda vez que voltava de corrida, quem possuía motor Seis de Opala dentro do Clube do Jipe, tinham que basicamente trocar a carcaça. Então estes eram gastos que eu não poderia ter. E como eu não tinha muitos recursos resolvi botar um motor Quatro de Opala, quatro cilindros, pois era mais econômico, mais fácil de mexer, e com carburador de Alfa Romeu, que eu havia comprado e adaptado. Dava mais potência que o carburador normal. Carburador é onde se alimenta o motor. Hoje em dia os carros modernos possuem injeção eletrônica. Antigamente os motores era feitos com carburador. Então era um Quatro de Opala com carburador, todo ali mexido. E como roncava!

 

Explicando melhor o motor, no que se dava a curva ali do coletor já saía o escapamento e era um escapamento cerrado. Geralmente os Jipes são silenciosos, o cano é comprido, sai lá atrás. O meu não: já no que saía o coletor - que é uma peça que vai ao lado do bloco do motor, - essa peça saía e quando engatava no cano, seu formato fazia apenas uma curva e saía já na lateral, embaixo do meu pé. Isso fazia aumentar consideravelmente o barulho do ronco.

 

Quando eu roncava, ele tremia o assoalho do Jipe, fazia aquele ronco, aquela adrenalina.

 

Quis ilustrar, falar sobre o cano em relação a isso, porque lembro que além da adrenalina, eu ficava como um 'cão louco raivoso querendo pegar'. O cara falava assim; 'Vai, vai, vai! E eu ‘pegava’ (risos). Eu ficava acelerando e acelerando (imita o som do motor). Aquela adrenalina. Nesse momento eu lembro que isso fazia bem a diferença. Por vezes eu ganhava só pelo jeito de entrar - como se diz lá no Rio Grande do Sul - 'entrando com os dois pés de voadeira'. Isso não quer dizer que sou uma pessoa violenta. Pelo contrário. Eu sou gaúcho, natural de Lagoa Vermelha - RS, capital do churrasco. Essa questão do gaúcho, ele sempre têm o aspecto assim mais de 'macho', aquela coisa de bravura, de proteção à família. Então eles falam muito que 'os gaúchos não brincam, aqui, os gaúchos riscam a faca'. Então 'chegar com os dois pés de voadeira' quer dizer que 'chegava pra quebrar tudo', chegava pra ganhar. Ou se ia pra competir pra ganhar o troféu ou então não ia. E isso acabou ficando comigo pra vida, eu entro pra pegar o melhor - não que eu vá pegar sempre o melhor - mas, na faculdade foi assim, tentei me destacar melhor dentro da turma... Então eu entrava pra competir valendo, não entrava pra competir tendo um meio termo. 'Ou é o extremo, faça o teu melhor, ou então não faça!'.

 

No período que corri, tive oito capotagens. Quatro de carro urbano, na estrada mesmo, e quatro competindo. Mas capotar dentro das competições com Jipe é muito natural. Eu capotava, tombava, e voltava a correr, nessa mesma sequência. Se não tivesse quebrado o Jipe, ou tivesse feito algo que eu pudesse consertar. Voltando à corrida: O Jipe era azul. Eu usava uma calça camuflada. Havia comprado de uma empresa que chamava-se Rodial - móveis e maceeiras, bem forte lá no RS. Comprei ele adaptado pra trilha, tinha uns pára-choques pra derrubar mato. E aos poucos fui modificando, profissionalizando, pra competir para campeonatos de Jipe Cross. Mudei a cor... Já meu irmão tinha uma Rural azul e branca onde eu dormia dentro. Ele fazia trilhas e hoje a Rural é toda tecnológica, como um carro, anda no asfalto de boa. Essa ocasião era a final do campeonato que eu competia, no final de 2016. Eu corria e até ia assistir algumas provas. Era a Fenajipe, a prova de Brusque, uma das maiores que existem - não a pista, o evento em si, com uma feira. Os amigos com quem eu corria todo ano ainda os encontro, dos que estavam correndo ainda continuam, como um pessoal de Gaspar que eu conheci, bem bacana. A diferença do Jipe Cross para a trilha é a seguinte:

 

Largava um Jipe ao lado do outro, cada um em uma pista, a de dentro e a de fora. Estas pistas são um pouco diferentes uma da outra. Cada um larga uma vez pela pista de dentro, depois pela de fora, somam-se os dois tempos, e faz-se a media. Essa media das duas pistas em que se correu é que vai te graduar para o pódio. Então aí era a final. Os dois melhores estavam aí. E eu era um deles.

 

Uma das mais nítidas lembranças é de quando eu ´bufava´ ali ao lado do cara e fazia uma ´cara de mau´. O outro competidor já perdia metade da confiança e eu saía na frente (risos). Então esse é um momento que eu levo pra mim, que não é um momento de tristeza nem nada. É mais um momento que eu considero que despertei pra alguns desafios na minha vida.

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